sábado, 23 de janeiro de 2010

Enquanto isso, alguns comentários.

* Esse caderno de Economia Doméstica é, com certeza, produto dos anos 1940: Segunda Guerra Mundial ou período imediatamente posterior ao seu final. As importações brasileiras caíram durante a guerra e não era possível contar muito com as exportações. O cenário era de cautela, daí - imagino - a ênfase na qualidade "econômica" atribuída à boa dona de casa;

* O homem não precisa ser instruído para se tornar um bom chefe de família: ele trabalha e provê o necessário ao sustento da casa. Ou alguém já viu manuais de educação masculina? À mulher cabe todo o restante. Ela sim é alvo de instrução, educação - inclusive no sentido formal, como o caderno da minha avó prova. O grosso da educação da mulher para a função de boa esposa, boa mãe e boa dona de casa é dado em casa, pela mãe, pela avó ou por tias, irmãs mais velhas.

* Similaridades, continuidades, permanências: existe hoje uma vastíssima gama de publicações dirigidas ao público feminino. Elas trazem receitas, truques domésticos, dicas de beleza, artigos sobre educação e sobre relações familiares, decoração e - uma grande diferença em relação a revistas femininas dos anos 1940 em diante - trabalho e sexo. Nesse último caso, novamente instrui-se a mulher no que fazer para "enlouquecer seu homem": pompoarismo, striptease, pole dance, depilação artística. De novo: não vejo por aí "manuais" ensinando homens a "apimentar a relação". São raros os casos.

* A mulher vive em um contexto de ambivalência: Mary Del Priore¹ identifica nas mulheres do Brasil Colônia a dualidade santa (representativa das qualidades desejáveis à boa mulher, identificada com a Virgem Maria)/puta (a mulher que transgride); a mulher no século XX transita entre a submissão ao poder masculino na esfera pública e o poder na esfera privada, já que ela é a responsável pelo funcionamento do lar.²

* A mulher hoje está livre do que o caderno de Economia Doméstica apregoa?

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¹ PRIORE, Mary Del. A mulher na história da colônia. In: PRIORE, M. D. Ao sul do corpo: condição feminina, maternidades e mentalidades no Brasil Colônia. Rio de Janeiro: Ed. José Olímpio., 1995.

² PROST, A.; VINCENT, G. (org.) História da vida privada, 5: da Primeira Guerra a nossos dias. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

Um comentário:

Bia, Desperate Housewife disse...

"A mulher hoje está livre do que o caderno de Economia Doméstica apregoa?"

resposta rápida: NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!

Inda mais em famílias que tem algum tipo de instrução religiosa (oie!).

Bjos